As Malvas
Um microconto | 2
De clavina ao ombro, o forasteiro segue por veredas pontilhadas por flores púrpura cujo nome desconhece. O sol está a despontar e os primeiros raios espreitam pela ramagem orvalhada. O cheiro a mosto e petricor é tão fresco como doce e enjoativo. Tem de medir cada passo para não resvalar na camada de lama e ervas recalcadas que cobre o caminho.
A piada pesa-lhe na consciência. Parecera-lhe tão inofensiva, em tudo semelhante às que estavam a ser trocadas em torno da mesa. Desenganou-se quando a viu chegar aos ouvidos da companhia reunida. Foi recebida com o silêncio súbito que se instala quando, levando um dedo aos lábios, todos sopesam o que dizer. Passado um compasso, ouviram-se risadas femininas contidas atrás de mãos calejadas. Traduziram-se rapidamente num rubor na cara do anfitrião, que se levantou da cabeça da mesa de um jeito que fizera o forasteiro sentir na mão a ausência da arma.
Ouvindo um restolhar vindo do matagal, o forasteiro leva a clavina à mão. A ceia deixou-lhe para digerir pouco mais que más memórias, e essas não enchem a barriga a ninguém. Sonha com uma lebre no espeto para lhe aconchegar o estômago desconsolado. Ajoelha-se e aproxima-se da sebe pé ante pé. Respira fundo para se acalmar e não espantar a caça. O episódio com o anfitrião revoa-lhe ainda na mente.
Acercara-se dele com os dentes arreganhados e intenções lupinas espelhadas na cara. O forasteiro começara a andar em direção à porta, às arrecuas e de mãos ao alto face ao dedo acusador que o anfitrião usava para pontuar as perguntas que lhe ia rosnando: Acha-se um engraçadinho, não é? Acha bonitas essas palhaçadas? Olhe que bonito é o respeitinho. E quem depende da hospitalidade alheia devia ter era tento na língua. O forasteiro tentara explicar-se, desculpar-se, não dissera nada por mal, nem percebera o mal do que dissera. Antecipando o forasteiro, o anfitrião lançara mão à arma.
Um pouco mais refeito, o forasteiro afasta as malvas com o cano da clavina. Perscruta a paisagem pela mira e prepara-se para abrir fogo. Vê apenas um plácido emaranhado de vegetação densa e o orvalho evaporando. Ouve o pissitar despreocupado de estorninhos. De lebres, nem sinal. Apertando gentilmente o cabo de madeira da arma, ainda enlameado em pontos, sentindo nas mãos o peso familiar, o forasteiro pensa que talvez seja a sua única amiga neste mundo.
Ninguém viera em sua defesa quando o anfitrião o escorraçara. Só se fizeram ouvir quando ele agarrou na arma – coros de Calma lá! e Esse desbocado não vale a pena. O forasteiro não se sentira magoado pela desconsideração nem pelos insultos, mas apenas quando o anfitrião, talvez dissuadido de pior pelo clamor, lançara a arma porta fora antes de o mandar embora a ele com um: Vá buscá-la e cuide-se, homem, que quem anda à chuva, molha-se.
O forasteiro dá um passo em falso e ouve-se o estalar de um ramo. Das malvas, lança-se sobre ele um lobo. Puxa o gatilho, mas do cano sai apenas fumaça.


