Da aflição, tanto veneno
Ou "Transladação" | Um microconto | Candidatura ao Prémio José Júlio Esteves Pinheiro | 8
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Da aflição, tanto veneno
Pacheco assobia a uma loura que, passando, lhe eriça o caracol. É imediatamente interpelado por um dos gigantes teutónicos que ressobram por aquelas bandas. O parente de Polifemo acerca-se, ensombrando o diminuto português, e cospe para o chão. Ronca algo que, ao ouvido dessintonizado de Pacheco, soa a “chiça caneco”. Apesar de ser grego para ele, o tom comunica tudo, e Pacheco, que há instantes se achava um garanhão latino, sente-se apequenar de vergonha como um rapazola imberbe.
Mais tarde, por tentativa e erro num tradutor automático, Pacheco deslinda o dito: Scheiß-Kanake. A máquina suaviza-o para “maldito estrangeiro”, mas talvez se resuma melhor com uma tradução má: “monhé de merda”.
Pacheco passa semanas a remoer a humilhação. As palavras revoam-lhe frequentemente pelo pensamento antes de adormecer e levam-no a ponderar porque é que ele, tão português como a canja, ele, cristão (não entrava numa igreja desde o Crisma) branco (na sola dos pés), ele, que mourejava e pagava impostos, ele, que se aclimara ao frio e à famosa frieza nórdica e aprendera até a comer weisswurst e a empurrar com Ayinger, porque é que ele, que rumou à Alemanha apenas em busca de uma vida melhor, se via agora nesta embrulhada de ser uma coisa e de o tomarem por outra.
Conclui que, não sendo Portugal um país sério, a resposta prender-se-ia inevitavelmente com algum desacerto das fronteiras digitais, um vaipe das máquinas dos passaportes, um quiproquó qualquer.
A memória, como carne que é, fraqueja, e o episódio é engolido pela espuma dos dias, mas Pacheco passa a ter secretamente para si que, ao transladar-se de uma burocracia para outra, tinha sentido no pêlo as consequências de algum desenrascanço mal-amanhado da função pública (a portuguesa, claro está).
Mas a verdade é mais complicada.
As vetustas fronteiras lusas, nos seus incognoscíveis desígnios de traço imaginário, haviam aprontado das suas. Com o condão de o fazerem sem lhe bulir na melanina, quando Pacheco deu o salto transfronteiriço passou, de facto, a ser castanho.
Anos mais tarde, regressando a Portugal, Pacheco e a multidão em que vai envolto chocam com um protesto na zona de chegadas do aeroporto.
Pacheco passa rente a um fulano ciclópico, que lhe aponta o dedo ao peito e grita, em inglês, Vai para a tua terra, Moamede!
Pacheco responde rispidamente na língua de Camões, Mas ouça lá, não vê que sou português?
E o ciclope, Chiça caneco, não reparei que era branco. É que chegou agora um avião com uma fornada de suecos lá do Paquistão, percebe, e o povo já não tem paciência para esta pouca-vergonha.
Pacheco acena, pousa as malas e olha em redor. Hesita. Sente algo borbulhar à flor da memória, como um sonho que foge à lembrança e, também sem qualquer bulir de melanina, agiganta.
Em setembro, fiz uma reflexão sobre esta história. Caso tenham interesse em devaneios desse género, podem lê-los aqui. Este texto é, portanto, uma versão (melhor, espero) daquele com que concorri ao Prémio José Júlio Esteves Pinheiro, na altura sob o título Transladação. O tema era “Fronteiras” e a extensão máxima era de uma página.




E a classificação? Cusquice, à parte.