Não é fácil escrever estando a viver fora. Todos os dias são uma luta contra a erosão. Contra o esfarelar do linguajar luso sem paredão que me valha. Pelos ecrãs e pelos altifalantes e pelas bocas dos outros, entra-se-me no pensamento e no falar um inglês terroso que é difícil sacudir. Já o fazia antes, mas não era este inglês, que considero mais nobre por mais terra-a-terra. Era o inglês mais cuidado dos livros, o teatral dos ecrãs e o aportuguesado das bocas dos outros.
Venho então, por este meio, pedir-vos caridade. Uma esmolinha. Venho, de mão estendida, pedir que se descosam e me deem a dádiva das palavras que têm como mais queridas. As académicas, as da gíria dos vossos ofícios – as vossas desentrabicoquadrilhadoras –, as obscuras e as rebuscadas, as carroceiras e as de levar à madrinha.
Peço apenas que evitem as banais, as quotidianas, as que se ouviriam no telejornal. Sendo essas as que, na democracia linguística, todos concordamos serem as mais úteis, são também as que correm a boca de meio-mundo e, portanto, as que mais merecem descanso, coçadas e em ferida e carne viva que estão, não nos cansando nós de as catar. Clichês são elas e clichados ficamos nós. (Passe a homofonia, pese embora a veracidade.)
Quero aquelas que sacam da manga para impressionar, as que puxam da cartola para seduzir, as familiares e as estranhas, as melífluas e as dissonantes, as esdrúxulas e as polissémicas, as que se inventaram na vossa terra ou na vossa família – essas, sobretudo essas –, aquelas que uma colega disse e que tiveram de apontar num caderno ou numa app própria para o efeito. Venham daí – peço educadamente – as caralhadas e as depuradas, as que acharam bem encaixadas, as dicas bem deixadas, as tiradas bem sacadas.
Esmola para quem tem fome. Prometo que, talvez, lhe venha a dar bom destino.



Neste cu de Judas onde vivo (pequena homenagem a António Lobo Antunes) e nos sítios onde habitualmente trabalho, obras e fábricas, se disser quaisquer e sandes, já faço um figurão. De parvo para muita gente, claro. Se quiser dar uma de intelectual basta dizer pu-la em vez de pusia.
Temos lá na minha terrinha uma variação de “lá” (naquele lugar), que se pronuncia algo como “lâ”, mas com som prolongado e com um levantar de queixo pro horizonte.
Se alguém mora “lá” em tal bairro, quer dizer que é num lugar mais longe do que “ali”, mas onde se pode chegar sem problemas. Agora, se alguém mora “lâ” em tal bairro, significa que é longe como a puta que o pariu e ninguém se atreve a ir num lugar assim em sã consciência.